-Mulher ao lado de seu amante em seu leito de morte. –

BEATRICE- Por que Deus teve de condenar o meu único e verdadeiro amor à morte de forma tão devastadora? Por que fez cair sobre ti a Peste que assombra os arredores enquanto a punição poderia pender sobre mim, livrando-te de tanto sofrimento?

LEONARD- Jamais repita estas palavras! Não faça com que estes últimos minutos que me restam sejam mais dolorosos. Não dor carnal, que dilacera corpos de reles mortais, mas dor que penetra por dentre as entranhas e estraçalha meu debilitado coração, já ferido por saber que não mais verei estes olhos que reluzem como esmeraldas.

BEATRICE- Oh! Por que eis de partir desta forma? Lágrimas escorrem de meus olhos e morrem em teus lábios como se pudessem matar sua sede e lhe conceder novamente vida. Vossa fonte secou… seu corpo, desfalecido…Tenho de partir e buscar fortaleza para servir-me de abrigo e proteger o fruto do nosso amor, que carrego em meu ventre.

—–

ADRIAN- Onde estavas? Aposto que foi atrás daquele maldito moribundo que pisou em nosso lar para semear discórdia, roubando-te de minha pessoa.

BEATRICE- Nunca pertenci a você. Meu coração e meu corpo sempre pertenceram a um único dono, que foi tirado de mim por injusta vontade divina.

ADRIAN- Cala-te! Não vê a vergonha que causa desrespeitando a decisão dos céus e falando daquele criado como se de fato fosse importante? A maldição fez-se cumprir, fazendo-lhe pagar por enorme atrevimento. Ele era subordinado a me servir, obedecer-me, enquanto a tua função, como mulher, era honrar-me e tratar-me como alteza de seu reino! Saia de minha frente antes que tomado por loucura e ódio, acabe com a sua vida, como se fosse apenas um roedor.

BEATRICE- Como quiseres. Partirei esta noite, em busca de uma nova vida e comigo, meu único companheiro, que me acolherá com doces memórias do falecido e que, um dia, tornara-se grande, como o homem que junto a mim, lhe concebeste a vida, confortando-me com orgulho e com sabedoria que herdarás.

ADRIAN- Pois vá! Retire esta carcaça que já estás sendo tomada pelo mau cheiro que transpira de sua alma pecadora e sufoca-me de desgosto. Vague por estas vielas em busca de comida e abrigo como um desafortunado. Espero que sofras por tuas escolhas o tanto quanto sofro em ver o tipo de “donzela” com quem fiz votos de matrimoniais.

E assim, Beatrice se foi, e com ela, o fruto de um amor proibido, entre um ordinário criado e uma bela donzela.

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